As quatro tribos Laowhutt

Escrito por Fael Braga | | Posted On segunda-feira, outubro 15, 2012 at 17:34

    

    Faltava pouco para o fim da tarde. O riacho derramava sua água sobre os pés de Ihhuá. Imóvel, o caçador da tribo Uerr´g mantinha os olhos fixos na água corrente e sua lança erguida em posição de ataque. Embora não fosse possível identificar qualquer movimento além de uma suave respiração, cada músculo de seu corpo estava preparado para atacar assim que necessário.
    
     Alguns metros a frente, Peuhh´i, seu irmão mais novo, acabara de açoitar a água com uma longa vara, espantando os peixes em sua direção. Ihhuá  esperou alguns segundos, sabia que a parceria com o irmão não falhava e, ao contrário dos outros caçadores, mesmo naqueles dias de escassez poderia voltar para a tribo com uma boa quantidade de pescado. Ihhuá sentiu a aproximação dos peixes wunaji, seu nado produzia um som característico e não demorou até avistar o cardume se aproximando. Iludidos pela segurança que envolvia o astuto índio, os peixes dançavam por entre seus pés. Quando por fim já havia analisado o maior peixe e se preparava para acertá-lo com a lança, ouviu então um gorjeio agudo que reconheceu de pronto como vindo de um bando de pássaros jouw´j. Ihhuá olhou para o céu e vislumbrou a rara passagem com estranheza, afinal não havia muitas luas, os pássaros haviam atravessado o território Uerr´g e muitas outras restavam até sua migração, além do mais, aquela não era a direção correta.



- Ihhuá! - Sussurrava Peuhh´i.
- Mas o quê? - Voltou os olhos para o garoto inquieto.
- Ihhuá! Os Peixes! - Insistiu Peuhh´i, dessa vez quase gritando.

    Com o susto Ihhuá movimentou a água o suficiente para espantar os peixes, não o suficiente, porém, para que perdesse todos de vista. Com um lançamento rápido e certeiro, atingiu sua presa.

- O que foi grande irmão? - Disse Peuhh´i ao se aproximar. - Por um momento achei que você iria tentar acertar aqueles pássaros idiotas com a sua lança! - Prosseguiu risonho.

Ihhuá fitou o irmão e disse:

- Esses pássaros. - Fez uma pausa - São jouw´j do sul, ainda não deveriam estar migrando... Deixa pra lá, não deve ser nada. Olha só, acertei um dos grandes. - completou exibindo o peixe em sua lança.

- "Wuaa" grande irmão! "Wuaa!" você sempre acerta! - festejou o entusiasmado indiozinho.

- Sim eu sempre acerto! - respondeu Ihhuá puxando Peuhh´i pela nuca e batendo levemente a testa, como gostavam de fazer.

- Agora temos de ir, o sol de Dreorï já está baixo. Quando chegarmos... 

A conversa foi interrompida por um grito estridente, quase um uivo.

- O canto do feiticeiro! - exclamou Peuhh´i - O que será Ihhuá?

- Esse canto é um chamamento... Ou um canto de guerra, não sei. - Ihhuá parecia preocupado. - Vamos, pegue a cesta de peixes e vá na frente, eu recolho os instrumentos e lhe alcanço na tribo.

    Peuhh´i se apressou em obedecer. Ihhuá ajoelhou, esfregou um pouco de pó e folhas contra as mãos e as lançou contra o vento. Era a forma de agradecer ao grande espírito da terra pela caça. Levantou, foi até a beira do rio, colocou sobre os ombros o casaco feito do couro de algum animal, amarrou os instrumentos de caça em um bornal que prendeu na cintura, dispôs o arco em suas costas e, por fim, colocou o penacho discreto de caçador. Já tomava o rumo da tribo, quando parou e vislumbrou mais um pássaro jouw´j voando no céu. Sentia que algo estava acontecendo, porém, afastou esse pensamento e seguiu floresta adentro, pois a gigante lua Janfah começava a caminhar no céu.

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    Ao chegar na aldeia Peuhh´i encontrou um cenário um tanto atípico; uma multidão de Uerrg´s curiosos reunidos no centro da aldeia e muitos ainda chegando. 
    
     O pequeno índio avistou então o velho feiticeiro Nih´Po posto no "altar", que não passava de uma pequena elevação na terra. No centro havia uma fogueira onde o ancião jogava seu "pó mágico", fazendo  levantar o fogo numa fúria de fumaça e fagulhas espetacular, ao mesmo tempo que cantava um canto uivado ancestral para chamar seus filhos e filhas.
    
    Os índios Uerr´g  chegavam de toda parte. Curioso Peuhh´i olhou para um lado e para o outro confuso, fez menção de que iria perguntar para alguém o que estaria acontecendo mas lembrou dos peixes na cesta. Achou melhor levá-los para a tenda do Feiticeiro como de costume, porém, quando virou em direção a tenda, teve o caminho obstruído por Gogg e Hogal, os filhos do Chefe Puw´Ynn:

- Onde você vai com esses peixes, pequeno bastardo? - Disse Gogg cruzando os braços e com um olhar mal intencionado.

- É alimento para tribo. Vou levá-los a casa do velho Nih´Po. - disse Peuhh´i de cabeça baixa, já se retirando.

- Tão Pouco? -  retrucou malicioso. - Mas até mesmo isso é muito para um caçador medíocre, filho de um traidor. Na verdade eu acho que você roubou isso da tribo. Você e seu irmão são carne ruim dos Dreorï. Você não acha Hogal?

Hogal fitou Gogg com o canto dos olhos, e lançou um olhar indiferente para o garoto. Parecia não ter nada contra ele, porém, muito embora fosse mais forte, parecia temer muito o irmão para dizer qualquer coisa.

- Vamos garoto, entregue logo a cesta antes que acabe como aquele covarde do seu pai. - Gogg agora segurava o garoto pelo ombro.

Os olhos de Peuhh´i se inflamaram. Olhando a cesta, observou um pequeno peixe danificado demais pela lança de Ihhuá. Provavelmente não seria aproveitado para o consumo. Agarrou a calda com força e disse:

- Meu pai não era covarde! Era mais valente que vocês dois que ficam sentados aqui o dia inteiro em cima dessas bundas sujas, esperando o grande Chefe morrer. - Fez uma pausa - E se querem tanto esses peixes, então podem ficar!

Peuhh´i investiu contra o rosto de Gogg com a carcaça do animal. 

- Ahhh, Meus olhos! Eu arranco a sua cabeça! Maldito seja! Segure-o Hogal! - Exclamou Gogg.

Hogal olhava para seu irmão e para o garoto, atônito, não conseguia se mover. 

- Vamos anda logo! Qual é o seu problema? Está com medo desse inseto? seu "quotrög das montanhas". - Disse limpando o rosto.

    Peuhh´i era valente, nem se quer tentou correr diante de tal situação, pelo contrário, fez posição de ataque. Porém, Hogal deveria ter o dobro de seu tamanho e o imobilizou sem a menor dificuldade. 

- Agora, seu caçador insolente, vou te ensinar a ter respeito por um guerreiro Uerr´g. - Gogg ameaçou enquanto tirava o cajado que carregava na cintura.

    Gogg ergueu o cajado com fúria. Peuhh´i fechou os olhos enquanto esperava o golpe certeiro. Porém o golpe não veio.  Gogg foi derrubado repentinamente. Era Ihhuá que pulara em seu pescoço como uma fera da floresta. Os dois rolaram por metros, até que pararam. Gogg segurando a mão do cajado de Ihhuá contra o chão, desferiu um soco contra sua face e mais um, porém, quando se preparava para o terceiro golpe, Ihhuá o golpeou com as pernas, projetando Gogg para frente e levantando-se num mesmo movimento. Os dois ficaram frente a frente observando o movimento um do outro. Gogg se precipitou com o cajado em direção a Ihhuá que com um esquiva rápida desviou e desarmou o oponente. Ihhuá saltou com o cajado derrubando Gogg. Forçou o cajado contra o pescoço do índio e disse:

- Da próxima vez que tocar um único dedo no pequeno Peuhh´i, eu te mato. Tá ouvindo? Eu te mato! Arranco essa sua trança feia e faço um cobertor para o meu saco. Vão conhecê-lo como "Gogg, aquele do cabelo do saco de Ihhuá". - Bufou contra o rosto do apavorado Gogg.

- Faça alguma coisa Hogal! - Olhou para o irmão que estava imóvel. - Anda logo seu animal.

    Mas Hogal não se mexeu. Gogg sentiu o cajado de Ihhuá afrouxar-se no seu pescoço. Olhou para o outro lado e viu a Figura do Chefe Puw´Ynn olhando severamente para ele.

- Levantem-se. - Disse o Chefe.

Os dois levantaram-se.

- Vocês dois são uma vergonha para a tribo. - Disse severamente. - Quantas vezes vou ter que castigá-los? Porquê não se portam como homens e sim como meninos?

- Mas Grande Pai, esses caçadores...

- Cale-se! - interrompeu o Chefe bruscamente. - Venha comigo. Isso não ficará impune! Ouviu bem Gogg? E quanto a você Ihhuá, depois venha me procurar, quero lhe falar... Por enquanto temos assuntos mais importantes à tratar. 

- Sim Grande Chefe. - Assentiu enquanto olhava duramente para Gogg. 

- Bela caça pequeno Peuhh´i. - O grande Chefe passou a mão pelo ombro do jovem índio, que sorriu. - Você sim será um grande homem para nossa tribo, talvez até um guerreiro.

    O Chefe e seus dois filhos se retiraram. Ihhuá, lançou um olhar preocupado para Peuhh´i.

- Você sabe que eu não vou estar sempre aqui para te proteger. Não quero que se meta em mais confusão.

- Mas eles disseram que eu roubei os peixes e... E eles iam pegar nossos peixes Ihhuá e chamaram nosso pai de covarde e... E, além do mais, eu ia dar um jeito naqueles dois antes de você chegar! - Eufórico, o pequeno índio dava socos no ar.

- É claro que ia! - Riu-se Ihhuá. 

Ihhuá ajoelhou-se de forma que pudesse olhar diretamente nos olhos de seu irmão. Com as duas mãos em seus ombros. 

- Peuhh´i, escute bem: Nosso pai não era covarde. Ele fez tudo o que era necessário, foi um honrado filho da tribo. - Olhou um pouco mais profundamente para Peuhh´i. - Não se importe com o que os outros possam dizer, você será um guerreiro tão grande quanto ele e nosso nome será lembrado por gerações em todas tribos das terras Laowhutt. Você acredita nisso?

- Sim. - Disse o garoto meio sem jeito, olhando para o chão.

- Então prometa que fará o necessário quando a tribo precisar de você independente do que possa acontecer!

- Eu prometo. 

Ihhuá bateu a testa contra a do irmão e lhe abraçou com ternura.

- E a propósito, o que está acontecendo aqui? - Indagou Ihhuá.

- Eu não sei. Mas descobriremos em breve. - O garoto apontou para o Chefe Puw´Ynn, que se juntava ao feiticeiro no altar.

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- Filhos e filhas da tribo, peço que abram a mente para minhas palavras. Os deuses se levantaram sob o monte Adom´naum. É chegado o tempo de grandes mudanças, todos teremos que permanecer unidos em espírito. Do leste temos maus presságios. A fumaça se levantou sob o céus, os nossos irmãos da montanha pedem por nossa ajuda. Estejam preparados para a tempestade que se aproxima! -  Dizia o Pajé com sua voz fantasmagórica. 

    O velho Ni´Poh segurava um recipiente feito com casca de árvores que continha a água dos grandes rios da terra Laowhutt. O feiticeiro ergueu a água sagrada que lhe conferia poder sob os elementos místicos e proferiu palavras incompreensíveis. Em seguida, olhou para o chefe Puw´Ynn e fez um sinal de positivo, como cedendo-lhe a palavra.

- Irmãos e irmãs, minha força compartilho com a vossa. Não sabemos o que o sinais interpretados por nosso pai espiritual nas águas sagradas podem significar. Os irmãos à leste, próximos as montanhas, avistaram grandes distúrbios na harmonia da terra. É possível que as tribos Laowhutt estejam enfrentando graves problemas. - O discurso prosseguia num tom sério, porém sereno. Todos da tribo prestavam atenção a cada palavra. Chefe Puw´Ynn prosseguiu - Há incontáveis luas, quando os elementos místicos se reuniram sob as montanhas, coisas ruins aconteceram e as tribos entraram em conflito. Por diversas vezes irmãos mataram irmãos. Entretanto, há muito  as terras Laowhutt vivem em harmonia. A terra nos dá tudo o que é necessário, então devemos fazer tudo o que é necessário para que a terra viva em paz. Amanhã, antes da luz iluminar a aldeia partirei para as montanhas a fim de me reunir com os chefes das quatro tribos, peço que os guerreiros Uerr´g compartilhem sua força e me sigam.

   Houve um instante de silêncio. O Chefe contemplava a tribo diate de si. Não houve uma palavra se quer. De repente, um jovem guerreiro ergueu seu cajado e gritou "Wuaa!", sendo seguido por toda a tribo em uníssono. Ihhuá e  Peuhh´i se olharam e sentiram a curiosidade, um no olho do outro. Deram de ombros como quem dissesse que o desafio não os impunha qualquer terror.

- Assim está bom. - Disse Puw´Ynn. - Começaremos os preparativos agora, e mais tarde descansaremos!

   Tão pronto o chefe acabou seu discurso, a tribo iniciou os preparativos. As mulheres e os jovens não iriam acompanhar  a jornada até as montanhas, mas estavam mobilizadas no preparo dos alimentos, ervas curativas para os feridos e ração para os animais. Os caçadores estavam reunindo uma quantidade significativa de madeira para fogueira, além  de estarem ocupados no preparo de tendas, nas quais iriam acampar durante a viagem. Os guerreiros, por sua vez, preparavam as flechas, lanças, cajados e vestimentas. 
    
     Ihhuá se ocupava de uma tarefa fundamental, tarefa essa que não seria confiada a nenhum outro Uerr´g: O preparo dos animais. A aldeia toda era cercada de wakk´s. Wakk´s são grandes animais de pelo branco que caem sobre todo seu corpo, grandes orelhas caídas nas laterais da cara e presas pontiagudas enormes. Apesar do tamanho, que pode atingir a altura de dois homens, peso e força aparente que possuem, são inofensivos quando bem tratados e de grande ajuda a tribo, fornecendo leite e ajudando os Uerr´g no transporte de madeira e alimentos.

- Certo Peuhh´i, agora eu vou jogar essa tira por cima dele, você segura e dá um nó. - Disse Ihhuá prendendo uma espécie de cela no wakk. - Esse é o último. Já estão preparados com as provisões, só nos resta alimenta-los para que tenham força amanhã.
    
    Chefe Puw´Ynn aproximou-se seguido do feiticeiro. Braços cruzados dentro da pele que levava sobre os ombros, disse:

- Muito bom Ihhuá! Os wakk´s estão todos prontos. Podemos conversar?

     Ihhuá, abaixou e lavou as mãos numa cuia próxima aos seus pés. Levantou secando as costas das mãos nas próprias vestes.

- Sim grande chefe, em que posso ajudar?

- Ihhuá, tem sido um grande membro de nossa aldeia. Não sei à quem confiaria a lida com os animais e as responsabilidades com a caça se não o tivéssemos aqui. - O chefe fixou o olhar nos olhos de Ihhuá e repousou sua mão sobre o ombro do índio. - Sei que a vida nunca foi fácil para você, mas sempre lhe tratei como um filho. Quero que fique aqui Ihhuá.

- O quê? Ficar na Aldeia? - Ihhuá não podia entender.

- Não sabemos a natureza dos problemas que nos aguardam e Peuhh´i não teria mais ninguém se algo lhe acontecesse, além do mais, eu ficaria mais tranquilo se tivesse alguém de minha confiança cuidando da aldeia em minha ausência. 

    Ihhuá fitou as estrelas e a lua Janfah por um instante.

- Eu agradeço grande chefe. Mas não posso ficar aqui, eu tenho que fazer o que for necessário para nossa tribo.

- Sim, - interrompeu Nih´Po - é necessário que façamos o que a terra nos pede, porém, nem sempre entendemos com clareza os anseios dos astros. Lembre-se Ihhuá, seu próprio pai escolheu, há muitas e muitas luas atrás, um caminho do qual não pode retornar. Mesmo sob a recusa tanto dos Uerr´g, quanto dos Dreorï, fugiu com sua mãe, a filha do Chefe Dreorï. Sangue foi derramado entre os nossos irmãos. Por fim, seus pais foram capturados e condenados a morte pelos Dreorï. 

    Ihhuá estremeceu, já sabia a história de cor. 

- Lembre-se do seu nome, - continuou o feiticeiro - Ihhuá "o filho do sol", aquele que pode nos trazer a paz, mas que também é portador do perigo de sua própria natureza. -  Nih´Po deu uma longa tragada num tipo de cachimbo. - Tenha cuidado jovem homem, seu destino está marcado por caminhos tortuosos, suas escolhas no futuro podem te levar à um caminho melhor ou mantê-lo na mesma estrada de seus pais.

   Ihhuá se manteve calado. Punhos apertados, olhos cerrados, como que tentando controlar uma explosão.

- Escute filho, sempre o tratamos com um dos nosso e...

Peuhh´i. - Ihhua interrompeu o raciocínio do chefe.

- Como disse?

Peuhh´i. Quero que ele siga comigo para o Monte Adom´naum, já está na idade de tomar parte dos problemas da tribo, peço que permitam que ele nos acompanhe.

    Chefe Puw´Ynn olhou para Nih´Po que balançava a cabeça em sinal de desapontamento.

- Está bem, se é assim que deseja, esteja pronto amanhã. Falarei com Hogal, creio que aceitará ficar na aldeia.

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    Antes que o sol Uá, aparecesse no horizonte a tribo Uerr´g já marchava em direção ao Monte Adom´naum. As centenas de wakk´s em fila cada um seguido de dez índios.
    
    No primeiro dia a a caravana seguiu tranquila pela imensa floresta Uerr´g. Pela noite acamparam na margem do rio Naum. No segundo dia seguiram margeando o rio e, pela tarde, o atravessaram. Nesse ponto da viagem houve uma dificuldade maior, que foi contornada pela habilidade de Ihhuá, montado em seu wakk conseguiu atravessar toda a manada, sem nenhuma perda considerável de provisões.
    
    No terceiro dia, a parte mais difícil da jornada: atravessar a região deserta das terras Laow. Os fortes ventos castigaram a tribo durante todo o dia e mesmo a noite em seu acampamento. Por mais três dias o comboio seguiu sem problemas significativos e então, no fim do sexto dia, foi possível avistar o grande Monte Adom´naum. A fumaça indicava que as outras tribos já estavam presentes. Os Uerr´g então acamparam e na manhã do sétimo dia chegaram ao seu destino.

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    Chefe Puw´Ynn estava montado no primeiro wakk da manada. Do lado direito o Pajé Nih´Po e a direita Gogg, também montados em wakk´s. Ihhuá vinha logo em seguida, não por prestígio mas sim por estar guiando a manada.

     Montado no mesmo wakk que Ihhuá, estava Peuhh´i. Ao chegarem ao topo do monte, (na verdade era um antigo vulcão que há muitas centenas de anos cessou sua atividade), podia-se encontrar uma grande depressão, onde as tribos estavam reunidas. A visão era deslumbrante, principalmente nessa época onde os astros estavam todos alinhados. Era o único lugar onde se podia observar o Sol "Uá", protetor da tribo Dreorï, "Janfah" a lua gigante mãe dos Uerr´g, "Tanep" o astro diurno deus dos Manod e "Adom" um sol vermelho de brilho fraco, mas pai de todas as coisas conforme a tradição dos Jesmat.

     Peuhh´i não podia conter o espanto diante de tão majestosa visão.

- "Wuaa" grande irmão. - Dizia ele com a voz baixa e com o queixo aberto.

     Ihhuá, por sua vez, não podia conter a emoção. Na última vez que vira o alinhamento dos elementos celestes, seus pais ainda estavam vivos.

      Com a chegada dos Uerr´g, os povos Laowhutt estavam finalmente reunidos e não se demoraram em fazer os comprimentos e dar início a reunião.

- O Povo Jesmat os saúda irmãos Uerr´g. "Adom" se sente feliz que venham  juntar-se ao nosso povo em hora de dificuldade. - Disso o  chefe Jesmat, um índio de longas tranças grisalhas, muito embora isso não lhe conferisse uma aparência envelhecida.

- O povo Manod compartilha a força de Tanep convosco! - Disse secamente o jovem chefe Manod, usando de poucas palavras como era típico de seu povo. Ao fundo os gigantes pássaros de pedra que eram domesticados pelos Manod, assim como os wakk pelos Uerr´g.

- Agradecemos que tenham vindo a nosso socorro bravos Uerr´g. Esperamos que o passado permaneça onde deve ficar. - Disse um índio Dreorï cuja a aparência não indicava que fosse chefe nem pajé, quem sabe um simples caçador. Não ostentava sobre os ombros penas, couro ou qualquer item que remetesse à "status" para com a tribo. A único adorno em sua figura eram as cicatrizes com um aspecto terrivelmente recente.

- A lua Janfah nos guiou em segurança até aqui irmãos Laowhutt, saudamos a todos... - O chefe Puw´Ynn interrompeu-se percebendo o estado lastimável da tribo Dreorï. Seu número estava reduzido a um terço talvez menos e a maioria deles feridos. - Mas o que houve? Onde está o chefe Dreorï? 

- É disso que se trata grande chefe, - respondeu o índio Dreorï - Nós que aqui estamos, somos os únicos que sobreviveram. Os povos nômades que antes rondavam o deserto Laow, se uniram e invadiram nossa aldeia. Houve uma grande batalha. Dao´i´Guar, um índio que foi expulso a muito de nossa aldeia é o chefe deles e reclamou o direito de nossas terras. O chefe Huaz foi morto, o pajé também. Os nômades queimaram tudo, tomaram as nossas mulheres. - Exclamava choroso.

- Entendo. Esperam que lutemos contra os Nômades por conta disso... - Refletiu Chefe Puw´Ynn. - De qualquer forma, o chefe Dreorï foi derrotado, como poderíamos lutar por uma tribo sem chefe? O que os Manod tem a dizer?

- Lutaremos. -  Disse o Pajé Manod, precipitando-se à resposta do chefe. -  Os Nômades são muitos, superam os Manod e os Uerr´g em número. Não podemos abandonar nossos irmãos. Porém os Jesmat se recusam a lutar.

- Nada temos a ver com a discórdia que os Dreorï causam entre eles mesmos. Ao que me parece esse problema é Dreorï, e há muitas e muitas luas os Dreorï já causaram problemas a todo povo  Laowhutt, mas  a paz prevaleceu. Não nos envolveremos em conflitos novamente. Nos manteremos neutros. - Disse o áspero chefe Jesmat. 

- Sejam sensatos grandes mestres. - implorava o índio Dreorï - Sem um chefe... Sem sua ajuda não teremos chance.

- Os Uerr´g também não tomarão parte desse conflito. - Afirmou duramente o Pajé Nih´Po. - Os Nômades, mesmo em grande número, não representam perigo para nossa tribo.  Os Jesmat estão neutros e os Manod não lutarão sem um consenso.

     O chefe Manod, concordou contrariado.

- Bem, nesse caso, - seguiu Chefe Puw´Ynn - Ficaremos todos aqui por um tempo protegendo os Dreorï, até que decidam se lutarão. 

    A discussão seguiu acalorada. Os Manod tentavam convencer as outras tribos a apoiar os Dreorï, mas nunca chegavam á um acordo. Tanto os  Jesmat, quanto os Uerr´g temiam que um outro envolvimento com os conflitos dos Dreorï colocasse em risco a paz entre as tribos. A noite já chegava e o impasse só fazia aumentar.

- Chega dessa confusão! - Disse irritado o Pajé Jesmat. - Não haverá luta, pelo que sei quem chefia a tribo agora é um legítimo Dreorï. Iremos até lá e faremos um pacto de paz. Eles terão que aceitar os dissidentes e manter a harmonia entre as tribos.

    Com isso houve uma explosão de revolta entre os Dreorï. A discussão aumentava de tom a cada momento, as conversas já se encaminhavam para um rumo hostil, quando um jovem, munido apenas de seu arco-e-flecha, seu cajado e sua coragem, se dirigiu ao centro da discussão. Era Ihhuá.

- Já chega. - Disse ele encarando os chefes das tribos. - Lutaremos!

- O que é isso agora? -  Espantou-se o grisalho chefe Jesmat.

- Cale-se Ihhuá! Volte a cuidar dos wakk. - Disse severamente Pajé Nih´Po .

- Lutaremos. Aquele que habita a aldeia Dreorï agora não merece o lugar de chefe, é um dos verdadeiros culpados pelos conflitos passados. - Insistiu.

- Volte já para o seu lugar e não me desafie! Não seja tolo, não me faça tirá-lo daqui a força. -  Chefe  Puw´Ynn se sentia ofendido com a impertinência de Ihhuá.

- Me desculpe grande chefe mas...

    Ihhuá pretendia continuar mas foi bruscamente atingido por um golpe de cajado de Gogg, acertando-o em cheio na face.

- Cale essa boca suja caçador! Demonstre ao menos um pouco de respeito para seu povo!

    Ihhuá caiu de costas. O Chefe Puw´Ynn prosseguiu:

- Me desculpem, isso não vai acontecer novamente. Como eu dizia...

- Lutaremos! - Interrompeu novamente Ihhuá. Com as duas mãos sobre o chão, cabeça baixa, o sangue escorria pelas tranças até o chão. Ergueu a cabeça e disse - Lutaremos!

     Ihhuá apoiou a mão sobre o joelho e levantou-se. Todos estavam atônitos. 

- Ficou maluco! - 

    Gogg espantado já preparava um novo golpe com o cajado quando Nih´Po interviu:

- Pare! Deixe-o falar. - Aproximou-se de Ihhuá - Seja lá o que tenha em mente, sei que não desistirá, portanto, seja breve... E escolha muito bem as palavras Ihhuá.

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   Ihhuá limpou o sangue e encarou os Dreorï por um momento. 

- Sou Ihhuá, filho de Pi´onn, um caçador Uerr´g e Penaf, a filha do chefe dos Dreorï. 

  Se todos já estavam sem reação, agora estavam congelados. As faces dos Dreorï exibiam as mais diversas variações de surpresa.

- Há muito meu pai fugiu com minha mãe de sua tribo, causando um grande conflito entre nossos povos. - Prosseguiu Ihhuá. - Por conta disso o Chefe Dreorï, meu avô, foi deposto pelos homens de Dao´i´Guar que assumiu o lugar de chefe.

- Sim jovem Ihhuá. Quando soubemos do assassinato da jovem Penaf e seus filhos, expulsamos Dao´i´Guar. Achávamos que estavam todos mortos.

- Mas não estou! Eu vivi para voltar e liderar os Dreorï contra os assassinos de meus pais. 

    Havia uma luz sobre o jovem índio, como se os astros refletissem todos, somente sobre ele.

- Mas não pode Ihhuá, você ainda é um Uerr´g. Terá que renunciar a sua tribo... e aos seus!

    Ihhuá olhou para o lado e viu Peuhh´i assustado atrás de um wakk. Caminhou até ele, ajoelhou-se e disse:

Peuhh´i, eu preciso que seja forte...

- Não Ihhuá! Eu quero ir com você! - interrompeu o garoto, abraçando seu irmão enquanto  as lágrimas escorriam em seu rosto.

- Escuta Peuhh´i! Você tem que fazer o que for necessário para tribo e para o nosso povo.

- Mas Ihhuá...

Peuhh´i, seja forte. Se vir comigo, será um Dreorï, o irmão do Chefe Dreorï. Mas se fica, então sera um Uerr´g, irmão do chefe Dreorï, um guerreiro. Assim nosso povo será mais forte!

     Peuhh´i ainda não podia entender a importância daquela situação, mas se manteve forte. Ihhuá se voltou para o chefe Puw´Ynn:

- Grande chefe, peço que apoie o meu povo... Que apoie a mim nessa luta!

     Puw´Ynn olhou fixamente para Ihhuá, como se tentasse achar um motivo para discordar.

- Se os Dreorï aceitarem Ihhuá como seu chefe. Os Uerr´g lutarão!

- Os Manod lutarão! - Exclamou o chefe Manod.

- Os Jesmat, não tem escolha. Lutaremos com nossos irmãos! - Ponderou o Pajé.

     Ihhuá atravessou toda a extensão do lugar onde estavam reunidos as quatro tribos, diante  dos olhos de seu povo, chegou até os Dreorï, ergueu o cajado e gritou:

- Lutaremos!

     O gesto foi seguido primeiro pelos Dreorï e depois por todo povo Laowhutt.

     A guerra tinha agora o seu início. A tribo Dreorï tinha novamente um chefe. E acima de tudo o povo Laowhutt tinha novamente a união. 

      Os Nômades eram mais numerosos do que os Laowhutt imaginavam. A guerra se prolongou por muitas e muitas luas, porém muitas vezes mais numerosas foram as luas em que foram contadas histórias sobre como um  caçador se tornou o Chefe dos Dreorï e posteriormente de todo o povo Laowhutt, agora unidos como um só.

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